quinta-feira, 21 de junho de 2012

Catecismo da Crise na Igreja

A FÉ

O que é a Fé?

A fé é uma virtude sobrenatural pela qual, apoiados sobre a autoridade de Deus mesmo, atraídos e ajudados por Sua graça, tomamos por absolutamente verdadeiro tudo que Ele revelou.

A fé pressupõe então uma Revelação divina?


Sim, a fé é a resposta do homem a Revelação de Deus.

Como Deus se revelou aos homens?       

Deus falou aos homens por meio de Moises, pelos profetas e, sobretudo, pelo Seu Filho Unigênito, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quais são as verdades que o homem conhece graças a Revelação divina?

Graças a Revelação, o homem conhece os atributos de Deus e sua essência trinitária; conhece também sua própria destinação eterna: a visão de Deus no céu. A Revelação lhe mostra, em fim, o caminho a seguir para chegar a esse fim. A observância dos mandamentos de Deus e a recepção dos sacramentos, que são os meios de salvação instituídos por Deus.

Por que se diz que a fé é sobrenatural?

As verdades reveladas por Deus que são o objeto da fé, ultrapassam a capacidade natural da nossa inteligência. Então, não é possível, sem um socorro divino, que se chama Graça, aderir a elas.

Que motivo nos faz aderir as Verdades Reveladas por Deus?

O motivo da Fé é unicamente a autoridade de Deus que Se revela. Cremos nas Verdades de Fé porque Deus as afirmou e não porque delas teríamos conhecimento por nós mesmos. Cremos, por exemplo, na Santíssima Trindade ou na divindade de Jesus Cristo não porque teríamos descoberto essas Verdades por nossa inteligência, mas porque Deus no-las revelou assim.

Como a Fé nos é comunicada?

Uma Fonte da Fé é a Sagrada Escritura, ou a Bíblia. Ela se divide em duas partes: o Antigo Testamento, que contém a Revelação de Deus ao povo Judeu antes da vinda de Cristo; e o Novo Testamento, que transmite explicitamente a Revelação Cristã.

Em que a Sagrada Escritura se distingue dos outros escritos religiosos?

A Sagrada Escritura é inspirada pelo Espírito Santo. Isso quer dizer que ela não é um simples escrito humano, mas que, por meio do autor humano, Deus é que é o Autor principal. Ele guiou o homem, de modo misterioso, para redigi-la. Por essa razão, a Sagrada Escritura é, no sentido próprio, a Palavra de Deus.

A Sagrada Escritura é a única Fonte da Revelação?

Dizer que a Sagrada Escritura é a única Fonte da Revelação é um erro protestante. O ensinamento entregue oralmente aos Apóstolos, que se chama Tradição Apostólica, também é, ao lado da Sagrada Escritura, uma verdadeira Fonte da Revelação. 

Há na Sagrada Escritura a menção a uma outra Fonte da Revelação?

Nem tudo o que Jesus disse e ordenou encontra-se na Sagrada Escritura. A Sagrada Escritura mesma diz “Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez; se quiséssemos contá-las em detalhes, crio que o mundo não poderia encerrar todos os volumes que seria preciso escrever” (Jo 21,25). Nessa época, se escrevia muito menos que hoje; a tradição oral tinha precedência.

Que outra razão se pode invocar para mostrar a necessidade da Tradição?

É unicamente pela Tradição que conhecemos certas Verdades Reveladas por Deus e, notadamente, quais livros pertencem à Sagrada Escritura. Há, com efeito, outros “evangelhos” e pretensas cartas dos Apóstolos, que não são autênticos escritos bíblicos. Os protestantes, que querem reconhecer somente a Bíblia como Fonte da Fé, devem, ao menos nisso, referir-se a Tradição, pois é dela somente que eles recebem a Sagrada Escritura.

Qual é a primeira das duas Fontes da Revelação: a Sagrada Escritura ou Tradição Apostólica?

A Tradição é a primeira das duas Fontes da Revelação: pela antiguidade (os Apóstolos começaram por pregar); pela plenitude (estando ela mesma na origem da Escritura, a Tradição contém todas as Verdades Reveladas por Deus) e pela suficiência (a Tradição não tem necessidade da Escritura para fundamentar sua autoridade divina; ao contrário, é ela mesma que dá a lista dos livros inspirados por Deus e que permite conhecer seu sentido autêntico).  

Qual a consequência da negação de um dogma?

Aquele que nega apenas um só dogma perdeu a Fé, pois não recebe a Revelação de Deus, mas se estabelece a si mesmo como juiz daquilo em que se deve crer.

Não se pode negar um dogma e continuar a crer em outros, e, portanto, conservar, ao menos parcialmente, a Fé?

Como vimos antes, a Fé não repousa sobre nosso julgamento pessoal, mas sobre a autoridade de Deus que Se revela e não pode enganar-Se, e nem enganar-nos. Então, é necessário receber tudo o que Deus revelou, e não tomar somente o que nos apraz. Aquele que se recusa a aceitar tudo, que opera uma escolha no Depósito Revelado, impõe a Deus um limite, pois deixa a última palavra a seu próprio julgamento. Agindo assim, não tem mais a Fé sobrenatural, mas somente uma fé humana, não importa quão numerosos sejam os pontos em que ela ainda está de acordo com a Fé sobrenatural.

Podem-se citar, sobre esse ponto, ensinamentos de papas?

O Papa Pio IX, quando da definição do dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria, em 1854, disse: “É por isso, se alguns tivessem a presunção, o que apraz a Deus, de pensar contrariamente à nossa definição, que aprendam e que saibam que, condenados pelo seu próprio julgamento, fizeram naufrágio na Fé e cessaram de estar na unidade da Igreja.” (DS 2804)

Leão XIII ensina a mesma coisa: “Aquele que, mesmo sobre um só ponto, nega uma das Verdades de Fé perde, na realidade, a Fé inteira, pois se recusa a respeitar Deus como Verdade suprema e motivo formal da Fé.” (Satis Cognitum)

E o papa cita Santo Agostinho, que dizia sobre os hereges: “É em muitas coisas que estão de acordo comigo, e em poucas coisas que não estão. Mas, por causa dessas poucas coisas nas quais não estão de acordo comigo, os numerosos pontos de acordo não lhes servem de nada.” (Comentário sobre o Salmo 54).

Então, em matéria de Fé, é tudo ou nada?

Não se pode ser 70% ou 99% católico; aceita-se toda Revelação ou não se aceita; nesse caso, não se tem mais que uma fé humana que fabrica a si mesma. O fato de escolher algumas Verdades dentre o conjunto das Verdades de Fé é o que se chama heresia (em grego, “escolha”).

O que se deve pensar do lema correntemente propagado segundo o qual as nossas relações com os “cristãos separados”, devemos olhar mais para o que nos une do que para aquilo que nos separa?

Quando se trata da Fé, é absolutamente falso e contrário do ensinamento tradicional da Igreja dizer que é preciso olhar mais para o que nos é comum do que para aquilo que nos divide. Dá-se assim a impressão que as diferenças só se referem a detalhes sem importância, quando, de fato, se trata da Verdade Revelada.

Mas a Fé não é principalmente um sentimento?

É um dos erros do modernismo condenado por São Pio X em 1907, na encíclica Pascendi, dizer que a Fé é um sentimento, emergente do subconsciente, que exprime a necessidade do divino. Na verdade, o ato de fé não é sentimento, mas a recepção consciente e voluntaria da Revelação divina, tal como esta se apresenta ao homem na Sagrada Escritura e na Tradição.

O que é a Revelação para os modernistas?

Para os modernistas, a Revelação se produz quando o sentimento religioso passa da esfera do subconsciente à da consciência. A Fé só seria então algo sentimental e subjetivo. A Revelação não seria dada do exterior (do alto), mas emergiria do interior do homem.

Qual é então, para os modernistas, o papel de Cristo na Revelação?

Na origem do Cristianismo há, para os modernistas, a experiência religiosa de Jesus Cristo (cuja divindade é, claro, posta de lado). Cristo partilhou suas experiências com os outros, que as viveram eles mesmos e as comunicaram ao seu redor. A Igreja nasceu dessa necessidade dos fiéis de comunicar a outros suas experiências religiosas e de formar uma comunidade. A Igreja não seria então uma instituição divina; seria somente – como os Sacramentos, o papado e os dogmas – o resultado das necessidades religiosas dos crentes.

Não é verdade que o homem tem naturalmente um sentimento religioso?

O sentimento religioso natural deve ser cuidadosamente distinto da Fé sobrenatural do Católico. Há certamente, no coração do homem, uma necessidade de Deus, mas que permanece um sentimento muito obscuro se Deus não intervém para Se revelar ao homem. Além do mais, como tudo que é natural em nós, o sentimento religioso está ferido pelo pecado original: pode facilmente levar ao erro e mesmo ao pecado (supertição, idolatria, etc).

A Fé não está porem, ligada ao sentimento religioso?

É exato que um sentimento de segurança e de bem-estar está ligado à Fé; mas aí não está a essência da Fé. Esse sentimento, como todos os outros sentimentos é cambiante, e será ora mais fraco, ora mais forte; pode mesmo desaparecer completamente durante algum tempo. Grandes santos, como São Vicente de Paulo ou Santa Tereza do Menino Jesus, foram, às vezes, privados dessa certeza sensível sem, no entanto, tornarem-se hesitantes em sua convicção sobre a verdade e a certeza da Fé.

Onde se pode encontrar o ensinamento certo da Igreja sobre esse ponto?

No juramento antimodernista imposto por São Pio X, e que todos os padres, até 1967, deviam pronunciar antes de sua ordenação, está dito: “Tomo em toda certeza e professo sinceramente que a Fé não é um sentimento religioso cego surgido das profundezas tenebrosas da subconsciência sob a pressão do coração e o impulso da vontade moralmente informada; mas sim que ela é um verdadeiro assentimento da inteligência à verdade recebida de fora, ex audito, assentimento pelo qual cremos verdadeiro, por causa da autoridade de Deus soberanamente verídica, tudo que foi dito, atestado e revelado pelo Deus pessoal, nosso Criador e nosso Mestre.”

 Fonte: Catecismo da Crise na Igreja - Pe. Matthias Gaudron - FSSPX

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