sexta-feira, 22 de junho de 2012

Participação dos bispos na Crise da Igreja

A CRISE NA IGREJA

Que participação tem os bispos na crise atual da Igreja?

“A crise da Igreja é uma crise de bispos,” disse o Cardeal Seper. Entre os quatro mil bispos da Igreja Católica, há certamente os que querem ser católicos e servir a Fé; mas, com a maior parte deles a Fé é muito maltratada. Em vez de defendê-la, permitem padres e professores que negam abertamente uma ou muitas verdades de Fé; pior ainda, os encorajam. Muitos bispos sustentam, eles mesmos, posições incompatíveis com a Fé e a Moral católicas.

Pode-se citar alguns exemplos?

Na Franças, o Cardeal Lustiger, Arcebispo de Paris, falecido em 2007, dizia publicamente que os judeus não precisam se converter ao Cristianismo. O proselitismo com eles não teria nenhum sentido.

De modo análogo, Monsenhor Doré, Arcebispo de Estrasburgo (e antigo decano da Faculdade de Teologia do Instituto Católico de Paris), nega que os judeus, tendo recusado a Cristo, possam ser considerados “infiéis” e “cegos”: não são eles que devem se converter, mas ao contrário, os católicos que usurparam seu lugar, pretendendo-se o “Novo Israel”.

Podem-se citar outros exemplos de bispos traindo a Fé Católica?

São, infelizmente, abundantes. Em 2001, a Comissão Doutrinal dos Bispos da França encorajou publicamente a leitura da Bíblia das Edições Bayard, sublinhando “sua fidelidade profunda à Revelação Divina”. Ora, essa edição da Bíblia nega a historicidade dos fatos descritos nos Evangelhos. Em 2003, o bispo de Limoges, Monsenhor Dufour declarou no sermão: “Nós não sabemos se Deus existe. Não sabemos com certeza científica; mas podemos saber pela Fé.” Ora, São Paulo e a Igreja ensinam que a existência de Deus pode ser conhecida com certeza, pela razão, mesmo sem a Fé.” (Se alguém disser que o Único e Verdadeiro Deus, nosso Criador e Mestre, não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio da coisas que foram criadas, seja anátema. Concílio Vaticano I, Constituição Dei Filius, DS 3026).

Em 6 de novembro de 1997, durante uma conferencia em Berlim, o Presidente da Conferência Episcopal Alemã, Monsenhor Karl Lehmann, nomeou Lutero “Doutor Comum”, título que habitualmente dado pela Igreja a Santo Tomás de Aquino!

A lista desses exemplos poderia ser prolongada indefinidamente. É um fato, infelizmente, que numerosos bispos contradizem artigos de Fé fundamentais.

O Papa tem também parte na atual crise na Igreja?

Como já evocamos, uma das características da crise atual na Igreja é ser fomentada pelas mais altas autoridades da Igreja. Os papas, até o presente, favoreceram essa crise: 1°) apoiando teólogos modernistas; 2°) defendendo eles mesmos opiniões e promovendo ações inconciliáveis com a Fé católica; 3°) pondo obstáculos ao trabalho dos defensores da Fé.

O Papa João XXIII tem responsabilidade pela crise atual?

João XXIII (1958 – 1963) é o papa que fez explodir a crise que estava encubada há décadas. Apesar das vozes que o alertavam, convocou o Concílio Vaticano II. Seu aggionarmento virou a palavra de ordem de uma perturbação sem limites, assim como da introdução do espírito do mundo na Igreja.

Pode-se verdadeiramente repreender João XXIII pela convocação do Vaticano II?

Mais ainda pela convocação em si mesma, deve-se repreender em João XXIII a finalidade e o espírito dessa convocação. No discurso de abertura do Concílio, João XXIII, depois de ter lembrado que a Igreja nunca deixou de condenar os erros, continuou: “Mas, hoje, a Esposa de Cristo prefere recorrer ao remédio de misericórdia de preferência a brandir as armas da severidade. Ela pensa que, em vez de condenar, responde melhor às necessidades de nossa época colocando mais em destaque as riquezas de sua doutrina. Claro, não faltam doutrinas e opiniões falsas, perigos que se devem alertar e que se devem rejeitar; mas tudo isso é tão manifestamente oposto aos princípios da honestidade e trás frutos tão amargos que hoje os homens parecem começar a condená-las por si mesmos.”

O Papa opunha-se também aos “profetas de desgraças” e pensava que os desapareceriam por si mesmos “como neblina sob o sol”.

O que há de culpável nessas declarações?

Esse ponto de vista ingênuo não tem nada a ver com a realidade. O budismo, o islamismo, o protestantismo são erros que existem a séculos e nunca desapareceram por si mesmos. Ao contrário, propagam-se sempre mais, porque a Igreja hoje se recusa a condená-los. Na própria Igreja, apesar das previsões otimistas do Papa João XXIII, a Verdade não resplandeceu; pelo contrário, uma multidão de erros se espalhou.

Há outros exemplos do pacifismo de João XXIII?

Monsenhor Lefebvre, membro da Comissão Preparatória do Concílio foi testemunha de um episódio pior ainda. Quando se escolhiam os peritos do Concílio, ele se surpreendia de encontrar nas listas, contrariamente ao regulamento, ao menos três padres que tinham sido condenados por Roma por causa de sua doutrina. No fim da reunião, o Cardeal Ottaviani veio até Monsenhor Lefebvre e explicou que aquele havia sido o desejo expresso do papa. O papa queria no Concílio, peritos cuja integridade da Fé estava sujeita a precaução.

Qual foi a atitude de seu sucessor, o Papa Paulo VI?

O Papa Paulo VI (1963 – 1978), que continuou com o Concílio após a morte de João XXIII, apoiou abertamente os liberais. Nomeou quatro cardeais – Dopfner, Suenens, Lecaro e Agagianian – moderadores do Concílio. Os três primeiros eram liberais bem conhecidos; o quarto, uma personalidade pouco marcante.

Paulo VI não se opôs, durante o Concílio, aos bispos liberais (notadamente durante o que estes chamaram de “semana negra” em novembro de 1964)?

Paulo VI as vezes freou os liberais mais extremistas; mas, geralmente, favoreceu os liberais mais moderados. Em 7 de dezembro de 1965m declarou aos bispos reunidos para o encerramento do Concílio: “A Religião do Deus que se fez homem encontrou-se com a religião – pois o é – do homem que se faz deus. O que aconteceu? Um choque, uma luta, um anátema? Isso poderia ter ocorrido: mas não aconteceu. A velha história do Samaritano foi o modelo da espiritualidade do Concílio. Uma simpatia sem limites invadiu-o todo inteiro. A descoberta das necessidades humanas (e elas são tanto maiores quanto o filho da terra se faz maior) absorveu a atenção do nosso Sínodo. Reconhecei ao menos esse mérito, vós, humanistas modernos, que renunciais à transcendência das coisas supremas, e sabei reconhecer nosso novo humanismo: nós também, mais que quaisquer outros, nós temos o culto do Homem.” Discurso do encerramento do Concílio, em 7 de dezembro de 1965. DC 1462 (1966).

O que se deve pensar dessa declaração?

Pode-se compará-la à ordem dada por São Pio X em sua primeira encíclica: “É preciso, por todos os meios e ao preço de todos os esforços, desarraigar inteiramente essa monstruosa e detestável iniquidade própria dos tempos em que vivemos, e pela qual o homem se substitui a Deus.”

Nota: Na encíclica Supremi Apostolatus, São Pio X designava, no passado, como uma característica própria ao Anti-Cristo o fato de que o homem, com uma temeridade sem nome, usurpou o lugar do Criador, elevando-se acima de tudo o que carrega o nome de Deus. E a um tal ponto que, impotente para extinguir completamente em si a noção de Deus, ele se afasta do julgo de sua majestade e dedica-se a si mesmo o mundo visível como um templo, onde pretende receber as adorações de seus semelhantes.

De onde pode provir essa ideia de culto do homem?

A maçonaria, que tem por objetivo a destruição da Igreja Católica, prega o culto do homem. Ouvindo Paulo VI, os maçons devem ter saboreado seu triunfo. Não é exatamente a realização dos planos que forjaram no século XIX?

Como se podem conhecer os planos traçados pela maçonaria contra a Igreja?

Os planos da maçonaria são conhecidos, entre outros, pela correspondência secreta dos chefes Alta Venda italiana, que caiu nas mãos da policia do Vaticano em 1846 e cuja a publicação foi ordenada pelo Papa Gregório XVI.

O que preveem esses planos maçônicos?

A correspondência apreendida e publicada mostra que os maçons queriam tudo empreender para que, um dia, pudesse subir no Trono de Pedro o que chamavam de “Um papa segundo nossas necessidades”. E explicavam: “Esse pontífice, como a maior parte de seus contemporâneos, estará necessariamente, mais ou menos imbuído dos princípios (...) humanitários que iremos começar a colocar em circulação (...) Vós tereis pregado uma revolução em tiara e pluvial, andando com a cruz e o estandarte, uma revolução que não terá mais necessidade de ser enfurecida, para colocar fogo nos quatro cantos da Terra.

Pode-se dizer verdadeiramente que Paulo VI foi esse papa imbuído dos princípios humanitários?

O hino seguinte, que foi entoado pelo Papa Paulo VI, quando o homem pisou na lua, poderia muito bem convir à boca de um maçom: “Honra ao Homem, ao Pensamento, à Ciência, à Técnica, ao Trabalho, à ousadia humana (...) Honra ao Homem, Rei da Terra e agora Príncipe dos Céus.” Paulo VI, 13 de julho de 1969, DC n° 1580 (1971), p. 156.

Paulo VI tem outras responsabilidades pela crise atual?

Paulo VI foi também o papa que introduziu o novo rito da Missa, cuja nocividade analisaremos em parte específica.

O que é preciso assinalar ainda sobre Paulo VI?

Foi sob o reinado de Paulo VI que começou a perseguição dos padres que queriam permanecer católicos e se recusavam a entregar os fiéis ao protestantismo, ao modernismo e à apostasia.

João Paulo II não operou uma reestruturação?

Dotado de um temperamento mais forte que Paulo VI, João Paulo II (1978 – 2005) podia parecer mais firme em certos pontos mas ele também se engajou mais resolutamente na via das novidades. Promoveu ações às quais, antigamente, estava ligada a nota de apostasia ou de suspeita de heresia.

Pode-se citar um exemplo?

Em 29 de maio de 1982, João Paulo II recitou o Credo com o pretenso arcebispo anglicano, Monsenhor Runcie, na Catedral Canterbury. Depois, ainda deu a benção com ele. O chefe anglicano estava vestido com todos os seus paramentos pontificais, embora não passasse de um leigo em razão da invalidade das Ordens Anglicanas.

Há outros exemplos do gênero?

Há piores: a cooperação em ritos idolátricos. Em agosto de 1985, João Paulo II participou de um rito animista num bosque sagrado, em Togo. Em 2 de fevereiro de 1986, em Bobaim, recebeu na testa o Tylak, simbolizando o terceiro de Shiva. Em 5 de fevereiro, em Madras, recebeu o Vibhuti (cinzas sagradas), sinal dos adoradores de Shiva e de Vishnu.

Até onde foi a cooperação do papa com os falsos cultos?

O triste ápice dessas atividades ocorreu na reunião de Assis de 27 de outubro de 1986. O Papa havia convidado todas as religiões do mundo para vir rezar pela paz, em Assis, cada uma seguindo seu rito. As igrejas católicas foram postas à disposição para a celebração de ritos pagãos. Na Igreja de São Pedro, fez-se mesmo entronizar uma estátua de Buda sobre o Tabernáculo.

Mas não é bom promover a paz e rezar nessa intenção?

Não é a paz, mas a idolatria e a supertição que são más, porque atentam gravemente contra a honra de Deus. Ora, uma boa intenção nunca pode permitir o cometimento ou o encorajamento de atos maus em si.

João Paulo II parou por aí?

Desde 1986, João Paulo II continuou a encorajar todos os anos as reuniões inter-religiosas do tipo de Assis. Mas ele também continuou com os gestos espetaculares de apoio às falsas religiões. Em 14 de maio de 1999, beijou publicamente o Alcorão. A fotografia desse gesto, abundantemente espalhada nos países muçulmanos, somente pôde confortar os maometanos em sua falsa religião.

Bento XVI não anunciou um retorno à Tradição?

Bento XVI é, sem dúvida, mais favorável a tradição litúrgica do que João Paulo II. Deu mais liberdade à liturgia tradicional por seu Motu Proprio de 07 de julho de 2007, apesar da oposição de numerosos bispos (notadamente na França e na Alemanha).

Mas se tem o coração tradicional, também recebeu uma formação modernista. Nos livros que escreveu quando era jovem teólogo, encontram-se numerosas afirmações contra a Fé, por vezes no limite da heresia. Mesmo que aparentemente tenha mudado de opinião sobre alguns pontos, não desautorizou seus antigos erros. Seu livro A Fé cristã ontem e hoje, por exemplo, ainda editado e vendido, coloca em questão, entre outras coisas, a Divindade de Cristo.

Bento XVI quer também salvar o Concílio Vaticano II. É por isso que tenta situá-lo na continuidade da Tradição. Veremos que isso é impossível.

Bento XVI promoveu gestos tão escandalosos como João Paulo II?

O Pontificado de Bento XVI apresenta-se mais sério do que seu predecessor. Apesar de tudo, já fez alguns atos que não são compatíveis com a Fé Católica.

Na Missa de exéquias de João Paulo II, onze dias antes de ser eleito papa, o Cardeal Ratzinger deu a comunhão na mão ao Irmão Roger Schtz, de Taizé, sabendo que ele era protestante.

No curso da mesma Missa, falou de João Paulo II “apoiando-se na janela da casa do Pai”, indicando assim que João Paulo II já estaria no Paraíso esmigalhando o Purgatório e procedendo a uma canonização instantânea.

Na sua primeira homilia papal, Bento XVI prometeu promover o diálogo ecumênico do qual o Papa João Paulo II se teria feito campeão.

Em 19 de agosto de 2005, apenas quatro meses depois de sua eleição, visitou a sinagoga de Colônia, dando assim a entender que o culto que lá é celebrado seria agradável a Deus (não se tratava, evidentemente, de um passeio turístico ou privado, mas de um gesto público, fortemente simbólico, que Bento XVI acrescentou por iniciativa própria, à agenda de sua visita à Alemanha).

Em 30 de novembro de 2006, Bento XVI se pôs descalço (e calçou calçados islâmicos brancos) para penetrar na mesquita azul de Istambul. Ali, depois de virar-se para Meca, recolheu-se por alguns instantes, de mãos cruzadas sobre o ventre. Aqui também sua atitude deu a entender que o culto praticado nessa mesquita era legítimo e agradável a Deus.

No dia 04 de fevereiro de 2008, Bento XVI modificou o Missal tradicional, suprimindo qualquer menção à cegueira dos judeus na oração feita na intenção dos mesmos, na Sexta-Feira Santa.

Fonte: Catecismo da Crise na Igreja – Pe. Matthias Gaudron - FSSPX








Catecismo da Crise na Igreja - II

A FÉ – II

A Fé pode mudar?

Para os modernistas, a Fé pode mudar, pois os dogmas são só a expressão de um sentimento e de uma necessidade religiosa. Devem, então ser adaptados e formulados de maneira nova, logo que mudem os sentimentos e a necessidade religiosa.
Ao contrário, se os dogmas exprimem de maneira infalível as Verdades de Fé, como ensina a Igreja, é evidente que não podem mudar pois o que era verdadeiro ontem não pode ser falso hoje, e vice-versa. Tanto quanto a verdade, a Fé é verdadeira e imutável. É por isso que São Paulo escreve: “Se nós mesmos ou um anjo vindo do céu vos anunciarem outro evangelho diferente deste que vos temos ensinado que seja anátema!” (Gal 1,8) “Jesus Cristo heri et hodie, ipse et in saecula – Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente”  (Heb 13,8).

Não há um progresso na Fé?

Um progresso da doutrina de Fé é possível somente no sentido de que as Verdades de Fé são, mas bem apreendidas e explicadas. Um tal desenvolvimento foi predito por Jesus Cristo à Sua Igreja quando disse: “O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu nome, ensinar-vos-á tudo e recordar-vos-á tudo o que Eu vos disse” (Jo 14,26).

O Espírito não pode ensinar à Igreja novas Verdades?

A Revelação acabou com a morte dos Apóstolos. Desde então, o Espírito Santo não ensina novas Verdades, mas faz a Igreja entrar sempre mais profundamente na Verdade trazida pelo Cristo. Verdades reveladas que, até uma época não tiveram mais um papel de segundo plana na vida da Igreja, podem, pois, passar ao primeiro plano em outra época. As controvérsias que opuseram a Igreja aos hereges a forçaram também a expor de maneira sempre mais precisa e mais clara as Verdades de Fé – tornando explícitas Verdades até então implícitas – mas sem nunca acrescentar nada ao Depósito Revelado aos Apóstolos.

Quais são as regras desse desenvolvimento da Fé?

O desenvolvimento da doutrina pode precisar o que foi ensinado no passado, mas jamais o contradizer, nem modificar. Não pode haver oposição. Uma vez que um dogma foi definido, não pode tornar-se falso mais tarde ou tomar um sentido novo.

Quando define um novo dogma, a Igreja não descobre novas Verdades?

Quando a Igreja define um novo dogma, não descobre novas Verdades, mas explica e põe destaque de uma nova maneira ao que, no fundo, sempre foi crido; é sempre “a mesma crença, o mesmo sentido e o mesmo pensamento.” O Concílio Vaticano I ensina claramente: “O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que eles façam conhecer sob sua Revelação uma nova doutrina, mas para que com Sua assistência, guardem santamente e exponham fielmente a Revelação transmitida pelos Apóstolos, quer dizer, o Depósito de Fé.” (DS 3070)

Várias religiões podem possuir a Verdade?

Do fato que as diversas religiões se contradizem entre si sobre pontos fundamentais, conclui-se que não pode haver várias que sejam verdadeiras. Uma só religião pode ser verdadeira, e é a Religião Católica. Deus Se revelou em Jesus Cristo, em não em Buda, nem em Maomé. E Cristo fundou uma só Igreja, que deve comunicar aos homens Seu ensinamento e Sua Graça, até o fim do mundo. A Fé no Deus trinitário, a Fé em Cristo e a Fé na Igreja formam, pois, uma unidade indivisível.

As diversas religiões se contradizem de verdade?

Ou Deus é Trino ou não. Se é Trino, todas as religiões não cristãs são falsas. Mas as confissões cristãs também se contradizem mutuamente: umas não creem na verdadeira divindade de Jesus Cristo, muitas não creem na presença real do Corpo e do Sangue de Cristo no Sacramento da Eucaristia, etc. Crenças tão opostas são incompatíveis.

Como podemos reconhecer que a Fé Católica é a Verdadeira?

Cristo provou a veracidade de Sua missão pelos milagres que operou. É por isso que diz: “Não credes que Estou no Pai e que o Pai está em Mim? Crede ao menos por causa de Minhas obras” (Jo 14,11). Os Apóstolos também se manifestaram por seus milagres: “Eles pregavam em todo lugar, o Senhor agia neles e confirmava a Palavra pelos milagres que a acompanhavam” (Mc 16,20). Os milagres são, pois, provas da missão divina da Igreja.

Pode-se estar certo da existência de milagres?

Sempre houve milagres na Igreja, e a existência desses milagres nunca foi tão certa como hoje, quando se pode, graças aos conhecimentos e meios de investigação científicos, excluir as explicações naturais com muito mais facilidade que no passado. A autossugestão e a alucinação não tem lugar aqui. Uma multiplicação de alimentos constatada por várias pessoas que não foram de nenhum modo influenciadas; a ressurreição de um morto; ou a cura súbita de um órgão quase completamente destruído não podem ser explicadas daquele modo. A Igreja não reconhece um milagre enquanto resta alguma possibilidade, ainda que mínima, de explicação natural.

Todos os milagres são de ordem física?

Ao lado dos milagres ditos “físicos” (fatos que são fisicamente inexplicáveis pelas forças da natureza), há também aqueles que se chamam milagres “morais” (fatos que são moralmente inexplicáveis pelas meras forças da natureza).

Dê-nos exemplos de milagres morais.

A difusão Cristianismo é um milagre moral, pois nenhuma explicação moral pode dar conta do fato de que doze pescadores sem instrução e sem influencia possam ter convertido, em pouco tempo, uma grande parte do mundo, e isso apesar da oposição dos ricos e poderosos. A santidade multiforme eu floresce sem interrupção na Igreja há dois mil anos é igualmente um milagre moral.

Os milagres provam as Verdades de Fé?

Os milagres não podem provar diretamente as Verdades de Fé, nem forçar a crer, pois então a Fé não seria mais a Fé, mas uma ciência. Eles mostram, no entanto, que a Fé não é uma confiança cega e sem fundamento, que ela não se opõe a razão, e que, ao contrário, não é razoável descrer!

Além das provas diretas de veracidade do Catolicismo, há provas diretas da falsidade do protestantismo?

Que as frações do Cristianismo não podem estar na Verdade deriva do simples fato de serem tardias divisões da Igreja de Cristo. Lutero não reformou a Igreja, como pretendeu, mas inventou novas doutrinas que contradizem aquilo em que os cristãos creram no passado. Os cristãos sempre estiveram convencidos, por exemplo, de que a Eucaristia só podia ser celebrada por um homem ordenado padre e que a Santa Missa é um verdadeiro Sacrifício. Como poderia ser verdadeiro pretender, de repente, mil e quinhentos anos depois, algo diferente? Como a Igreja Anglicana poderia ser a verdadeira, uma vez que ela deve a sua existência somente ao adultério do Rei Henrique VIII?

Pode-se, então, facilmente, encontrar a verdadeira religião?

Devemos constatar com o Papa Leão XIII:

“Reconhecer qual é a Verdadeira religião não é difícil a qualquer um que queira julgar com prudência e sinceridade. Com efeito, provas numerosas e estupendas; a verdade das profecias; a multidão dos milagres; a prodigiosa rapidez da propagação da Fé, mesmo entre seus inimigos e diante dos maiores obstáculos; o testemunho dos mártires e outros argumentos similares provam claramente que a única verdadeira religião é a que Jesus Cristo instituiu Ele mesmo e cuja guarda e propagação deu à Sua Igreja como missão.” (Immortale Dei)

Se é simples encontrar a verdadeira religião, como explicar que tantos homens na a reconheçam?

Se tantos homens não reconhecem a verdadeira religião é, sobretudo porque muitos pecam por negligencia nesse assunto. Não se preocupam em conhecer a Verdade sobre Deus, mas se contentam com os prazeres deste mundo, com costumes e supertições do meio em que vivem e que bastam para satisfazer seu sentimento religioso; eles não tem sede de Verdade. Muitos pressentem, além disso, que a verdadeira religião lhes exigirá sacrifícios que não desejam. Enfim, o homem é naturalmente um “animal social”: tem necessidade de ajuda em todos os domínios (físico, técnico, intelectual e moral) e depende muito da sociedade onde vive. Se esta é islâmica ou ateia (como a nossa), se a escola e as mídeas os afastam do Cristianismo (e, também, embrutecem-no para impedi-lo de refletir), ser-lhe-á muito difícil nadar contra a corrente.

A Fé é necessária para a Salvação?

A Sagrada Escritura ensina que a Fé é absolutamente necessária para se obter a salvação eterna. “Aquele que crer e for batizado será salvo; aquele que não crê será condenado”, diz Nosso Senhor (Mc 16,16). São Paulo ensina: “Sem a Fé é impossível agradar a Deus.” (Heb 11,6)

Qual é essa Fé necessária para a salvação?

 A Fé necessária para a salvação não é qualquer fé, mas a verdadeira Fé, aquele que faz aderir de modo sobrenatural à verdadeira Doutrina revelada por Deus.

Essa necessidade da verdadeira Doutrina é visível na Sagrada Escritura?

A necessidade de guardar a verdadeira Doutrina é manifestada pelas advertências repetidas dos Apóstolos quanto aos incrédulos e aos hereges: “Um tempo virá em que os homens não suportaram mais a sã doutrina; mas, ao contrário, ao sabor de suas paixões e com o ouvido seduzindo-os ardentemente, dar-se-ão mestres em quantidade e desviarão o ouvido da Verdade para se entregar às fábulas.” (II Tim 4,3)

Aqueles que, sem culpa de sua parte, não aderem às Verdades Reveladas estão, pois, necessariamente perdidos?

Deus dá a todo homem a possibilidade de se salvar. Aquele que desconhece as Verdades de Fé, sem culpa de sua parte, obterá de Deus, num momento ou em outro, se fizer todo o possível para viver bem, a possibilidade de receber a graça santificante. Mas é evidente que aquele que, por sua culpa, não professa a verdadeira religião se perderá eternamente.

A Verdadeira Fé é, pois, de suprema importância?

Efetivamente. Não se trata, nessa questão, de uma vã controvérsia teológica, mas da salvação ou da perdição eterna das almas imortais.

 Fonte: Catecismo da Crise na Igreja - Pe. Matthias Gaudron - FSSPX

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Os escravos da imaginação

Dom Lourenço Fleichman OSB

Uma oposição sistemática entre o mundo e a Igreja, entre a sociedade civil apóstata e a família católica: realidade mais do que conhecida, denunciada e lamentada. Todos nós sabemos disso e procuramos nos orientar de modo a não perder a fé, a não nos entregarmos aos prazeres e aos critérios desse mundo mau. Temos, sim, os Evangelhos e São Paulo que já nos alertavam e nos alertam ainda hoje, pela Revelação das Sagradas Escrituras. Temos a Igreja, com sua palavra forte, sua Tradição, seu depósito da fé, transmitindo, de papa a papa, de concílio a concílio, os conselhos e mandamentos que devemos seguir para não cair no abismo. E os padres lembram, em sermões e artigos, que devemos viver no mundo sem ser do mundo, que devemos estudar, nos armar contra a enganação do mundo, defender as crianças contra as escolas deformadoras, a televisão invasora e destruidora da moral católica.
Tudo isso nós sabemos e por isso devemos estar atentos e fortalecidos pela graça.
Mas não adiantou muito!
Não adiantou muito sabermos disso tudo, não adiantou muito os pais católicos saberem e desejarem um mundo católico para seus filhos. O testemunho dos pais é eloquente. Mesmo as famílias que não têm televisão sofrem do mesmo mal. Mesmo as crianças que estudam nos colégios de padres da Tradição, passam pela mesma crise.
Onde vamos encontrar os instrumentos para recompor a Cristandade? É possível recompor a Cristandade? Onde vamos encontrar forças para manter nossas famílias num mundo católico se “devemos combater as forças adversas espalhadas pelos ares”?
Pelos ares? Que forças são essas de que nos fala o Apóstolo, forças do mal, que nos ameaçam pelos ares? Vamos reler esta passagem do cap. VI da Ep. aos Efésios:
“Porque nós não temos que lutar contra a carne e o sangue e sim contra os príncipes e  poderosos, contra os governadores deste mundo de trevas, contra as ondas iníquas espalhadas pelos ares”.
Os comentadores atribuem estes ataques aos demônios e traduzem príncipes e potestates como sendo parte da hierarquia dos anjos maus, por “principados e potestades”. São Tomás de Aquino explica que se deve entender assim estes termos porque o diabo é o mandante, a causa principal, tendo o poder de atacar os homens com forças tão estranhas que são chamadas pelo Apóstolo de “spiritualia”, ou seja, forças imateriais, ondas, que causam dano maior do que as tentações da carne, ondas contra as quais só conseguiremos resistir com a armadura de Deus.
Mas hoje, vivendo neste mundo de alta tecnologia, podemos perfeitamente entender o que sejam estas ondas imateriais que atravessam os céus (in caelestibus) e que são comandadas pelos poderosos deste mundo de trevas que é o nosso. Parece-me portanto lícito e importante traduzir os termos “principes et potestates”  com seu significado próprio que é de “príncipes e poderosos, e incluir nesses “príncipes e poderosos” os que controlam esse mundo da Informação, das ondas que atravessam os céus. Para São Tomás, os únicos nomes de anjos que poderiam servir tanto para os anjos bons como para os demônios seriam os Principados e Potestades, por esta razão nomeados aqui. Mas a explicação do Doutor Angélico confirma a participação dos homens maus nesta passagem de São Paulo:
“Eles são, portanto, poderosos e grandes e por isso possuem um grande exército contra o qual deveremos lutar, contra os governantes deste mundo de trevas, a saber, dos pecadores.” (São Tomás de Aquino, Comentário sobre Efésios, Cap.VI, leit.3)
Isso tudo leva São Paulo a indicar o uso de uma armadura como único remédio contra o ataque final do demônio, que não seria pelos pecados da carne, pelos pecados próprios ao corpo humano. E devemos ligar esta grave advertência à grandeza do que o Apóstolo dizia no cap. 5,8:
“Outrora éreis trevas, agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz, porque o fruto da luz consiste em toda a espécie de bondade, de justiça e de verdade, examinando o que é agradável a Deus; e não tomeis parte (nolite communicare) nas obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as. Porque as coisas que eles fazem em secreto, vergonha é até o dizê-las. Mas todas as coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz, porque tudo o que é manifestado é luz. Por isso a Escritura diz: Desperta, tu que dormes e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.”
E São Paulo completa esta maravilhosa passagem dizendo que devemos “recobrar o tempo porque os dias são maus”.
Eis, assim, que o Apóstolo grita para despertar a homens que, segundo ele, tinham sido iluminados pelo batismo. Estavam dormindo, então?
Não me parece que os homens passaram estes dois mil anos dormindo. O mundo conheceu mil anos de atividades enriquecedoras tanto no ponto de vista natural quanto do ponto de vista sobrenatural, do estudo da doutrina, da teologia e da filosofia, e da compreensão dos mistérios da união mística com Deus. Isso tudo animou e desenvolveu os homens da Idade Média nos mil anos em que o demônio ficou amarrado no inferno, como nos revela o Apocalipse (cap. 20, 1-3).1

Nós é que dormimos. A nós se dirige o Apóstolo quando grita para nos despertar. E de onde vem o nosso sono? A resposta a esta pergunta é o ambiente profetizado por São Paulo nesta passagem que citei, e que impregna tudo, vai roendo e dilacerando as nossas forças sem percebermos, como procuro descrever abaixo.

Inteligência, vontade e imaginação
É conhecido o fenômeno que ocorre com nossa consciência quando lemos um romance. Acontece de nos transportarmos em espírito ao ambiente, ao mundo que vivemos pela leitura. Com o uso da imaginação, esquecemos temporariamente da realidade que nos cerca a ponto de, muitas vezes, termos os próprios sentidos externos diminuídos. Já não ouvimos os sons do ambiente e não vemos os objetos que nos cercam.
Com a leitura do livro, somos obrigados a interromper esse mundo virtual criado pelo romance, por conta das nossas obrigações e necessidades. Voltamos à realidade e, num próximo momento de lazer mergulhamos novamente no país das maravilhas. No caso do cinema, a concentração do mundo virtual é muito maior, apesar de o tempo ser reduzido. A sala escura, a ausência de som exterior, o tamanho da tela e sobretudo a imagem viva, em movimento, provocam um mergulho profundo dos nossos sentidos no mundo virtual. Mas ele termina logo e permite um retorno à realidade e às obrigações do dia à dia.
Este ritmo de leitura dos bons livros permite à nossa alma assimilar o bem que ali se encontra, seja ele a beleza artística do estilo ou o exemplo moral das virtudes dos personagens, ou a descrição viva dos lugares desconhecidos. No caso do cinema o proveito é nitidamente menor, na medida em que a arte da escrita cede lugar à arte da imagem fotográfica, muito mais material do que aquela, exigindo menos elevação e domínio da razão. O ritmo do mundo virtual, porém, é mais forte e não é raro um filme marcar profundamente, por suas imagens fortes, nosso comportamento, por vezes durante alguns dias, até que voltamos ao normal.
Apesar de não estarmos aqui analisando o valor moral dos romances ou dos filmes, não podemos deixar de assinalar que é obrigação do artista apresentar aos seus leitores ou espectadores luzes para a razão e elevação moral. Uma obra de arte que, se dirigindo à nossa inteligência, como é o caso dessas duas artes, nos levasse ao pecado ou à quebra dos costumes naturais e cristãos, não deveria ser apresentada ao público. Gustavo Corção explica como deve agir o artista: “A literatura moderna tem produzido muita obra demonstrativa das chagas e da baixeza humana, coisa que não oferece maior dificuldade; mas são poucos que sabem fazer nos seus romances, nas suas cenas, aparecer um homem como Marmeladof, de Crime e Castigo, que na pior abjeção deixa entrever ainda um último fulgor de grande dignidade, de quem foi feito à imagem e semelhança de Deus” (artigo Dostoievski, Diário de Notícias de 27/9/61).
Escravos da Imaginação
O que aconteceria com uma pessoa que tomasse um livro para ler, entrasse no mundo virtual do romance e nunca mais saísse dele? Quais as consequências de ordem moral, psíquica e espiritual que adviriam a um homem prisioneiro do mundo da imaginação? E sobretudo, seria possível isso acontecer, mesmo na continuidade dos afazeres domésticos?
Em 1968 o mundo foi sacudido por manifestações políticas estudantis. O centro dessa febre foi Paris. Lá, no meio de uma enxurrada de faixas e slogans revolucionários e contra a natureza, lia-se o seguinte: “A imaginação no poder”.
Trinta anos depois, não podemos deixar de considerar que esta frase, como as demais também, não estava ali por acaso; não se tratava de uma tirada esperta de algum estudante mais vivo. Ela e as demais foram escritas e expostas com objetivos mais definidos do que parece. Hoje podemos compreender que, não somente a imaginação está no Poder, como entendemos que a imaginação já escraviza a nossa sociedade. Fomos levados, sem nos darmos conta, ao mundo virtual da imaginação, que assumiu o controle dos homens, das famílias, da política e da Igreja. Trata-se de um envenenamento maciço de toda a população mundial, mantida sob o domínio alegre e feliz do mundo virtual.2 As fontes dessa vida da imaginação se multiplicaram tanto que hoje já podemos dizer que vivemos grande parte da nossa vida mergulhados naqueles sentimentos estranhos de um mundo imaginário, como se vivêssemos num mundo de romance. Claro está que o contato desse mundo em que vivemos presos com a dura realidade do dia a dia causa-nos diversas reações perigosas e doentias, aumentando o drama em que vive a humanidade.

Nosso sistema de coordenadas espirituais
A inteligência é uma faculdade de nossa alma espiritual pela qual nós conhecemos a verdade. Conhecer a verdade é encontrar uma luz sobre alguma coisa. Uma vez esta luz encontrada, um certo repouso produz-se na alma que conhece um objeto. Esse descanso significa que chegou-se ao termo do ato de conhecer. Por isso podemos definir a verdade como sendo a “adequação do objeto conhecido com a inteligência que conhece”. Este exercício do ato de conhecer supõe que exista um objeto a ser conhecido, e este objeto, de alguma forma, deve chegar até nós, pelos nossos sentidos e deve se “encaixar” perfeitamente em nós, pela sua essência objetiva e natural.
Vemos assim que o ato de nossa inteligência banha-se na realidade da coisa.
Agora, se nós somos levados insensivelmente a não tomarmos parte na realidade, se o mundo virtual levar nossas vidas a concentrar-se na nossa imaginação, deixando de lado o real concreto, nossas atividades de conhecimento nunca alcançarão a verdade, limitando-se a conhecer as coisas como supostas. Com isso ocorrerá uma atrofia da nossa inteligência, a qual não encontrará o objeto próprio de seu ato, que é a coisa real.
A conseqüência imediata deste desvio de nossa atividade de conhecimento é o desaparecimento da certeza em nossas vidas. Já não há lugar, em nossa atividade de conhecimento, para a verdade, já que o acesso às coisas reais está ofuscado pelo uso contínuo da imaginação. Desaparece aquele repouso da alma no objeto conhecido, e nasce a dúvida, a angústia, a incerteza.
Como se não bastasse essa atrofia da inteligência, ocorrerá um outro distúrbio psíquico em nossa alma. A nossa vontade também ficará atrofiada.
A vontade é uma faculdade da alma que nos move em busca do objeto real. Ela é movida porque a luz que a inteligência lança sobre a coisa, apresenta-a como um bem, levando a alma a querer possuí-la. Quando nossa inteligência alimenta-se da verdade, o amor nos move ao bem. Mas se nossa inteligência não conhece mais os objetos reais, o que vamos amar, então? Vamos querer os frutos da nossa imaginação: prazer, bens de consumo, viagens, dinheiro, lazer etc. Tudo aquilo que o mundo da Informação nos apresentar em suas campanhas publicitárias e em seus programas políticos e sociais, em sua televisão e no mundo virtual da internet, nas drogas, na pornografia e nas diversões.
Isso afetará fortemente nossa força de vontade. Fugiremos de nossas mais simples obrigações, que serão vistas como coisas pesadas e desagradáveis. Perderemos a concentração no estudo, no trabalho e na vida de oração. Haverá nesta espécie de “depressão”  a soma de um certo desespero pela falta de um objeto de conhecimento que repouse nossa inteligência, com a tendência evidente em dirigir nosso ato de vontade às coisas que nos trazem prazer, na ausência do bem verdadeiro. E estaremos como que entregues a todos os erros ensinados por esses poderosos nos programas de mídia e de informação. Os homens passaram assim a condenar como absurdas as mais claras verdades, aceitando calados todas as mentiras sobre nós mesmos, sobre o mundo e, principalmente, sobre a atuação da Igreja Católica na história da humanidade.3

Mais do que isso. Vivendo com este mundo virtual pingando gôta à gôta na alma, como um soro espiritual nefasto, mesmo quando, num momento de lucidez, vermos que estamos mergulhados no vício, não encontraremos forças para dele sair, pois para isso precisaríamos romper com muitos costumes considerados “normais” e apresentados noite e dia como sendo de uso comum e universal.

Terremoto psíquico
A consequência desse tremendo distúrbio interior é a perda das referências da nossa existência. Vamos tomar um exemplo. Quando estamos num determinado plano, nossa vista toma alguns parâmetros como referência: as paredes de uma casa, a inclinação de uma montanha, a linha do horizonte, dependendo de onde estivermos. Se num determinado momento o lugar começa a se mover de modo rápido e por muito tempo, nossa vista não tem tempo de mudar seu eixo referencial. Por exemplo quando um avião faz voltas, perdemos a linha do horizonte. O que acontece? Ficamos tontos, enjoados, podendo até mesmo perder a consciência e desmaiar. Pois o mesmo acontece com o veneno que descrevi acima. Nossa inteligência e nossa vontade atrofiadas e nossa imaginação super-excitada provocam o estado tão conhecido de stress, angústias, depressões, tão comuns no homem moderno. Ele perdeu seus critérios de vida, tanto psíquica quanto social.
E quais são esses critérios?
O critério da inteligência é a verdade natural, pela qual nós conhecemos a natureza de todas as coisas, sua essência. Na vida da graça, a verdade sobrenatural, o Verbo divino e seu Evangelho, a Revelação, de onde brota a nossa fé, que nada mais é do que o conhecimento infalível da verdade revelada.
O critério da vontade é o bem natural que flui de tudo o que é verdade;  e a fonte de todo o bem sobrenatural é o Divino Espírito Santo, o amor de Deus em nós, que se chama Caridade. O sistema de coordenadas de nossa alma é o Sinal da Cruz, mas o Sinal da Cruz fincado na terra. Nossa referência maior é Jesus Cristo crucificado, restaurando nossas vidas, vida do corpo, vida psíquica e vida espiritual, pelo seu Sacrifício, para seu fim último que é a felicidade de Deus, no céu.
Já estamos perdendo contato, cada dia mais, com o eixo de coordenadas da nossa vida, com o mundo real, luminoso e moral, e com a verdadeira religião de Jesus Cristo. Os homens já dão mostras evidentes de um distúrbio interior impressionante. Estamos todos numa epidemia mundial, uma lepra, uma Aids espiritual que nos tirou todos os recursos naturais e sobrenaturais necessários para viver numa civilização natural e cristã. A peste! A peste! E as almas vão se acumulando pelas ruas, desfiguradas, mortas, como nos tempos da peste negra e do cólera. As consequências práticas desse distúrbio já fazem parte do nosso mundo globalizado.
- A política perdeu seu caráter de bem comum, acima dos bens particulares. O poder será disputado acirradamente na busca desenfreada de um lugar na máquina democrática alimentadora de propinas e corrupção. A Demagogia reinará como rainha no mundo mitológico da manipulação das consciências, pela imaginação. Os políticos, semi-deuses deste Olimpo, serão mestres na arte de enganar e levar as massas de milhões de eleitores a crer na lisura e integridade de suas vidas. Veremos idéias destruidoras da humanidade serem aceitas com todo o respeito e homens ditos de bem venderem-se por um prato de lentilhas (de votos).4

- Na vida social, de relacionamentos dos homens com seus semelhantes e consigo mesmo, o mundo virtual e imaginário cria laços também imaginários, selados pelo interesse próprio, mesquinho e egoísta, animados pelo uso generalizado das drogas e da pornografia, coisas aparentemente combatidas pelos governantes mas que parecem ser, ao contrário, estimuladas, senão financiadas, pelo Poder do mundo da Informação. Como em “Admirável Mundo Novo”, são coisas que ajudam os pobres homens escravizados a manterem-se fora da realidade quando chegam do trabalho. Ainda outro evento estranho que se espalha pelo mundo são os programas de reality shows, com os quais o mundo da Informação está habituando seus escravos a viver sob vigilância constante. Os homens vão acabar não sabendo mais viver sem uma câmerazinha ligada neles. Os semi-deuses aqui são os artistas, desportistas, jornalistas e intelectuais.5


- Os cientistas, infelizmente, fazem parte do Olimpo da Informação, divulgando tantas mentiras e falsidades que disputam com os políticos e intelectuais o primeiro lugar, bem perto do Zeus da Informação. Tudo inventam para denegrir a Igreja. Inventaram o Evolucionismo, onde a matéria vai ganhando maiores perfeições, sem que expliquem de onde elas vêm; inventaram a vida em outros planetas cujo dogma principal é que os tais seres são sempre apresentados como mais fortes, mais inteligentes e capazes do que o homem. Tentam agora manipular a vida e se arriscam no orgulho de “ser como deuses” e sentir o fogo da espada divina a lhes expulsar do “Paraíso”.6


- Do ponto de vista da religião, estamos vendo o desaparecimento dos dogmas, das verdades de fé, reveladas e infalíveis, base da nossa salvação. Em seu lugar os homens modernos só aceitam as religiões que se apresentem como uma escolha entre outras, fruto de opiniões, todas elas respeitáveis. E então podemos compreender todo o enlace do Concílio Vaticano II, cúmplice dessa manobra dos infernos, impondo às almas dos católicos a liberdade religiosa e o falso ecumenismo. Religião da liberdade ao erro, da escolha de “opções”; religião da democracia e da imaginação. E trememos diante de tal realidade, quando consideramos que os escravos que aceitam isso estão perdendo a fé sobrenatural, e com isso, correm o risco de se perderem para sempre.

Em busca da cura
O que fazem, atualmente, os homens, quando percebem que vivem depressivos e angustiados? Vão ao analista. Uma vez por semana, de quinze em quinze dias, cada um no seu ritmo, todos vão buscar no psicólogo o remédio do seu mal. Funciona? Dando sorte de encontrar uma pessoa boa, sensata, experiente, pode-se dizer que funciona até certo ponto. Mas como poderá curar a pessoa? Como poderá extirpar pela raiz a doença do espírito, se o paciente continua vivendo da imaginação, no seu sonho acordado do mundo virtual? Como poderá ser fonte de cura uma psicologia que não dá conta das atividades mais elevadas da alma, restringindo-se ao seu aspecto sensível e dando muitas vezes soluções em sentido contrário às necessidades espirituais dos seus pacientes? A psicologia freudiana encaixa-se perfeitamente dentro desse mundo alimentado pela imaginação. É um círculo vicioso e a pessoa vai sempre necessitar do analista. O eixo de referências continua sendo falsificado.
Só haverá cura verdadeira do mal da humanidade quando se oferecer às pessoas a pacificação das suas angústias pelo restabelecimento do eixo de coordenadas verdadeiro, de cada um de nós: a verdade e o bem, a certeza e o amor espiritual, elevado e determinante, no lugar da enxurrada de opiniões que nos levam como vagas amorfas e sem repouso. Só haverá cura verdadeira se os homens compreenderem que não podem se entregar cegamente às atividades manipuladoras da nossa consciência no envenenamento do mundo virtual. Só venceremos se colocarmos os pés no chão, sentirmos a brisa forte e o sol quente, a hora de levantar e trabalhar por razões divinas e por dever humano.
Proponho o confessionário, uma cura de confissões, para as almas depressivas e angustiadas. Lá, junto a um padre paciente e espiritual, a alma encontrará o aconselhamento adequado, baseado nas atividades mais importantes e necessárias da alma, sua inteligência e sua vontade, seu conhecer e seu amor, além de receber o perdão de seus pecados e restabelecer a amizade com Deus. Alimentados com a grande realidade da fé, o Pão Divino descido do céu, teremos acesso ao conhecimento verdadeiro de Deus e a seu Amor substancial: “Amarás o Senhor teu Deus com todas as tuas forças, com toda a tua mente, com todo o teu espírito”
O que eu queria dizer ao longo destas já longas linhas é que não nos basta viver na Tradição. Não nos basta assistir à missa tradicional, e depois viver desatentos diante de todas estas coisas que nos devoram por dentro e que fazem parte de nossas vidas, hoje, querendo ou não querendo. Temos que conviver com o monstro dentro de casa, na rua, no trabalho, na escola. E se nos demorarmos dormindo, seremos transformados em estátuas de sal. A Sodoma e Gomorra de hoje queima por dentro, como numa explosão atômica e não encontraremos o caminho do céu se não acordarmos e levantarmos para tomar as armas descritas por São Paulo quando profetizou esta situação final.
“Portanto, tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau e estando aperfeiçoados em tudo.
“Estai pois firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade” [perfeitos na inteligência]
“E vestindo a couraça da justiça” [perfeitos na vontade]
“Tendo os pés calçados para anunciar o Evangelho da paz” [perfeitos na vida social]
“Sobretudo, tomai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados dos piores” [perfeitos na religião]
“Tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito que  é a palavra de Deus”
“Orando continuamente em espírito com toda sorte de orações e de súplicas e vigiando nisto mesmo com toda perseverança”.
Que os leitores me entendam bem. São variadas as formas como cada um vive e não devemos julgar nosso vizinho. Cada um vive como pode, procurando manter-se na vida da graça, na busca da salvação. Mas é necessário, imprescindível, questão de vida e de morte: reconhecer que estamos sendo levados como cordeirinhos ao matadouro por estas atividades do mundo virtual. Já é hora de levantar-se do sono. Voltar a dominar a imaginação com a luz da inteligência, com a força da vontade firme, reta, e santa. E só conseguiremos isso com o esforço de exercitar as faculdades mais elevadas da alma tanto no conhecimento das coisas naturais quanto na vida de oração e na prática das virtudes.
Não sei se ainda haverá, sem um milagre espantoso de Deus, uma Cristandade, um Reino Social de Jesus Cristo, como deveriam ser todas as nações. A impressão que temos é que precisamos nos armar e nos formar para um combate rude e solitário, contando com a ajuda da graça de Nosso Senhor e o manto maternal da Virgem Maria. Mas temos a Igreja, temos os santos, seus livros e seus ensinamentos, para levar o combate até a vitória final.
O demônio lançou seu ataque final. E o Justo vive da Fé.
   
   
1.    1.“E vi descer do céu um anjo que tinha a chave do abismo e uma grande cadeia na sua mão. E prendeu o dragão, a serpente antiga, que é o demônio e Satanás, e amarrou-o por mil anos; e meteu-o no abismo, e fechou-o, e pos sêlo sobre ele, para que não seduza mais as nações até se completarem os mil anos; e depois disso deve ser solto por um pouco de tempo.
    E vi tronos e várias personagens sentaram sobre eles e lhes foi dado o poder de julgar; vi também as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus e por causa da palavra de Deus, e aqueles que não adoraram a besta nem a sua imagem, nem receberam o seu caráter sobre a fronte ou sobre as suas mãos, e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. (...)
    E quando se completarem os mil anos, Satanás será solto de sua prisão e sairá e seduzirá as nações que estão nos quatro ângulos da terra, a Gog e a Magog, e os juntará para a batalha, o seu número é como a areia do mar. E estenderam-se pela superfície da terra e cercaram os acampamentos dos santos e a cidade querida. Mas desceu do céu (por mandato) de Deus um fogo que os devorou; e o demônio que os seduzia foi metido no tanque de fogo e de enxofre, onde também a besta e o falso profeta serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos”
2.    2.Quem nunca chegou em visita a uma casa onde a televisão estava ligada sem ninguém ver, e continuou ligada apesar da visita? Impressionante também a notícia ouvida numa rádio de que a ONU está muito preocupada com a nova classe de homens: os não-conectados (a expressão é da ONU), e que está promovendo a distribuição de computadores entre esses “pobres”, começando pela Hungria, para que eles também tenham acesso ao mundo da Informação!
3.    3.Seria longo demais desenvolvermos alguns desses pontos. Citamos aqui: escravidão, Idade Média, índios, Inquisição, ciência, judeus e muitos outros.
4.    4.A aprovação pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso da lei que legaliza a união de homossexuais é prova disso. Lei iníqua, destruidora da família, destruidora do Brasil. A propaganda de televisão que acompanhou esta lei só merece o fogo do inferno.
5.    5.É digno de nota o mundo dos esportes, em que milhões de adeptos, muitos deles pobres, enchem os estádios para assistir a esses semi-deuses que recebem salários exorbitantes.
6.    6.Tenho ainda em mãos uma página do jornal O Globo de  8 de agosto de 1996, onde o anúncio do programa de naves espaciais para ir a Marte é acompanhado de uma série de chamadas mentirosas e sensacionalistas insinuando o descobrimento de vida em Marte, quando o próprio texto mostra claramente que se tratava de “elementos químicos” presentes nos seres vivos (e também nos inorgânicos). O leitor desatento só retém a mentira sensacional.